POR BEM OU POR MAL
Angel Cabeza
Vocês pensam que são Deus/criando homens e mulheres,/mas não sabem criar a solução./
Vocês pensam que são Deus/e abrem o mar para as suas tropas/bombardearem.
Mas, o que começa um dia acaba,/por bem ou por mal.
Milagres não existem mais./O que vocês transformam agora é/água em sangue e destruição,/
multiplicando medos, /dizendo, além de tudo,/que estão acima de toda razão.
Vivam bem enquanto podem,/pois a vida virá contra vocês./Como em um filme de terror, quem morre é o criador./Tanta farsa e indolência,/vocês são deuses de papel/e um dia vão virar pó.
POR TRÁS DE MIM
Angel Cabeza
Estou cansado dessas meias verdades./De toda essa dificuldade,/de dizer o que somos/ e pra que viemos./Eu sou quem eu sou e não importa/se amanhã vou chorar./ E daí, quem é que
nunca chorou uma vez na vida?
Se eles têm a bomba, eu também tenho a minha./E não vou soltar até me provocarem./É tudo difícil, mas eu sei conversar também,/ dizer palavras absurdas.
Lá em casa alguém me disse: - você está tão bem!/Mal sabem que o bem estar não é ser feliz./
E como ser feliz contando os desempregados,/as esmolas, os mendigos e os ladrões?
Serei eu mesmo sempre./E, se alguém quiser dizer basta,/que seja para ele mesmo./Sei da minha parte e não trocarei.
E quem quiser brigar/pense pelo menos uma vez.
POLIANA
Angel Cabeza
Ela acorda sorrindo,/não se importa se alguém chorou/ou se alguém morreu./Só quer saber de seu café e seu coração./Não liga pras horas chatas,/está sempre feliz./E ela diz que tudo é perfeito,/que os seus brincos são a melhor coisa da vida.
Ela só quer dançar/até o dia rodar./Ela só quer dançar/numa ciranda.
E ela diz que é tão bela,/mas eu sei que o tempo é traiçoeiro e vai voltar./Ela só quer olhar o espelho e falar no celular./Enquanto a vida corre lá fora anda na contramão./Só quer saber de seu coração.
E ela corre pelo asfalto,/olhando os olhos no retrovisor./E fala que isso é vida. Eu digo isso é mentira./Mas quem não mente não sobrevive./E ela parte corações pobres, fracos, indefesos./Um dia desse eu ainda vejo Poliana chorar.
FÁBULA MODERNA
Angel Cabeza
Meu amor venha aqui!/Trouxe-lhe uma carta escrita em vermelho sangue;/ou azul, ou arco-íris, como você sempre quis,/que conta histórias de cavalos e princesas/e um mundo soldado pelo romantismo infantil./romantismo infantil./Meu amor, não sei escolher romances,/a não ser que você faça parte deles/e que eu seja um dragão adormecido pelo seu amor./ E ao acordar seja o dono desse reino chamado de coração./coração./Meu amor venha até aqui!/Trouxe-lhe uma carta escrita à mão,/com arco-íris, dizendo que nada é igual/e que te amo./E que te amo./Existem cavalos voadores.
PEDRAS E DIAMANTES
Angel Cabeza
É exagero dizer que no país se morre por vontade própria/todo mês./É exagero dizer que no país se morre mais por fome que por violência./Um tiro que ninguém escutou./Uma palavra santa que ninguém declamou./Quanto tempo ainda temos para olhar pro céu e aceitar que a vida vai e vem?/Quantos homens se puseram em frente ao muro negro,com as suas armas na mão?/A nossa juventude se perdeu./Compraram nossas armas e escudos./Se o amor se vai, nos resta a dor/e a lembrança em vão de um tempo tão bom,/perdido./É exagero dizer que não se rouba por falta de emprego,/enquanto outros ostentam demais nesse governo./E há aqueles que esperam através de uma oração que Deus desenhe estrelas nesse céu tão cinza./A humanidade supera tudo,/menos a sua própria ignorância. E se até Nietzsche chorou por amor/ e Einstein morria a cada teoria,/não é você que vai ficar no fundo desse abismo,/tapando com as mão a luz do próprio dia./Ainda que venham tempestades transformamos pedras em diamantes.
TEMPESTADES
Angel Cabeza
Ontem choveu o dia inteiro./Não sei se era Deus ou eu chorando por 30 minutos./Não pude sair, ver o sol./Nem viajar entre as estrelas.Você não estava lá./Por que os jornais não dizem coisas engraçadas?/Assim, podíamos brincar de sorrir./Por que os olhos nunca são tão belos/como um conto de fadas?/Me explique sobre o azul do céu/ou ao menos sobre os cometas./Me fale dessa confusão que é viver nesse planeta./Por que matamos por dinheiro?/Por que existe solidão?/Será que sempre foi assim?/Ontem choveu o dia inteiro./Não sei a que horas começou, mas gostei das gotas simples/batendo na janela./ E conversei comigo mesmo;/E aprendi a ser feliz;E que em algum lugar no espaço existe paz e harmonia.
AMORE
Angel Cabeza
Estou cansado de ouvir falar de amor e das coisas corretas da vida./Quero tudo do meu jeito agora./Estou cansado de mentiras,/promessas que nunca foram cumpridas./Quero tudo para ser feliz./Pensei que fosse fácil lhe esquecer,/mas, a cada dia que passa,/ gosto muito mais de você./Só conhece o que é solidão./Nunca sentiu amor seu coração./Só não lhe culpo por eu estar tão só./Se fácil fosse lhe dizer tudo o que eu sinto por você,/talvez o mundo não parecesse tão vulgar./ Só que por dentro a dor é forte e eu não consigo nem pensar em mim./Pelos pulsos, deixo o sangue escorrer pelo decorrer de um coração partido,/despedaçado,/ por um amor incompreendido e amargurado./E quando partires,/me lembrarei do dia em que estivemos juntos/e me lembrarei de ti.
TERCEIRA CAUSA
Angel Cabeza
Ei, você aí, viu o que deu no noticiário da televisão?/Mais um corpo estendido no chão./E a sua juventude, que era boa demais,/acabou se misturando/ com o sangue voraz.
Ei, você aí, sabe o que é ser feliz?/Então, use armadura contra o ódio impulsivo que nos mata e destrói./Que nos mata e destrói./O certo vira errado./O errado vira vítima/Quando é que foi adulterado o coração?/Coração./Ei, nada mais tem calma, a não ser aquele sol,/perturbado pelas lágrimas de um país sem construção./E não adianta comprar homens se daqui a algum tempo/serão corrompidos e virarão contradição./E virarão contradição./O certo vira errado./O errado vira vítima/Quando é que foi adulterado o coração?/Coração./Coração.
PRIMEIRA PÁGINA
Angel Cabeza
Está na história e nos livros a escravidão que todos temos demais,/aplaudindo a nossa derrota e os mortos nos hospitais;/a Corrupção de sentimentos;/os professores da destruição;/as armas de guerra nas pequenas mãos./Descendo a rua eles vêm fardados/por um governo desgovernado./E não respeitam nem a população,/ordem e progresso de uma nação./Por que é tão normal/a primeira página do jornal?/Por que é tão normal/a primeira página do jornal?/O pai matou seu filho/pensou que era um bandido./E agora, vai morrer/dentro de um presídio./E eles falam do delinqüente que rouba água pra matar a sede enquanto outros roubam nossas vidas./Por que é tão normal/a primeira página do jornal?/Por que é tão normal/a primeira página do jornal?/ Não sou contra ninguém, mas, por que o dia é belo se crianças foram mortas?/Sou tão jovem como vocês./Do nada, somos algo./Do algo, seremos mortos./Dos mortos, somos o contra tempo e ao nada retornaremos.
CANÇÃO DO SILÊNCIO
Angel Cabeza
Não adianta mais fingir/estar tudo bem quando está tão mal./Hoje, essa dor vai ser passageira,/
e quando vermos já será outro dia./Todos acham que tudo é normal,/mas, não engolem qualquer coisa./Olhar pra si e deixar os outros sempre foi a coisa certa a fazer./E quantas noites passamos em claro,/achando soluções que nunca se encaixam?/Mas, o outro dia é sempre o mesmo dia passado,/onde eles se acham os donos da verdade/em suas roupas normais./Nem um café cura a solidão./Nem um tiro apaga essa dor./E é pior sem você aqui,/porque a onda é grande e eu sinto demais./Não serei quem eles querem que seu seja,/serei eu mesmo./Até tentei demais, mas estou fraco./Parece que os sonhos nunca dormem/ou sonham./E essa dor vai ser passageira,/sem trocados e esperança,/porque um dia, quem sabe, serei mais feliz/porque um dia, quem sabe, serei mais feliz/porque um dia, quem sabe, serei mais feliz.
ZERO A ZERO
Angel Cabeza
Mentir pra que?/Mentir pra que,/ se o país não vai pra frente por causa da nossa grande indecisão?/Gritar por que?Gritar por que,/se é apenas mais uma criança que morreu com uma arma na mão?/E você não viu quando eles chegaram/e dobraram a esquina./Ninguém vai ver, então, quando você chorar./A vida é traiçoeira/e nesse zero a zero eu posso ganhar./Mas, o amor não tem identidade,/nem conta de luz./Fica aceso por uma vela,/que vela a voz da nossa grande ilusão./E é tão fácil/ ir adiante/ e não olhar pra trás,/mesmo que a vida,/ por um instante,/ já não pareça mais/igual ao que era antes./E eles dizem que tudo vai bem./Eu sei de todas as verdades;/que ainda há remédio;/que ainda há esperança./E quantas balas acertaram sonhos?/E quantas vidas estão sobre escombros?/Quanto tempo ainda temos pra rezar?/Quanto tempo ainda temos pra amar?/Quantas horas eu ainda vou esperar?